Psicoterapia Pós Diagnóstico Psicológico
- Rafael R. Foltram
- 23 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de out. de 2024

Muitos pacientes chegam ao consultório já com um diagnóstico psicológico estabelecido.
Frequentemente, passaram por uma avaliação psiquiátrica, recebendo um diagnóstico e um encaminhamento para o psicólogo.
É crucial que esse processo seja acompanhado por ambos os profissionais, pois seus trabalhos são distintos. Quando recorremos à medicação psiquiátrica, muitas vezes estamos em um estado de desequilíbrio emocional tão intenso que a psicoterapia por si só pode não ser suficiente. A desestruturação emocional dificulta a construção durante o processo terapêutico. Portanto, a medicação muitas vezes oferece suporte para essa estruturação, permitindo um trabalho mais eficaz na psicoterapia.
Juntos, paciente e terapeuta trilham um caminho em busca de mudanças e adaptações, visando eventualmente reduzir ou eliminar a necessidade dos medicamentos. Porém, para alcançar esse ponto, é crucial entender algumas questões: o que motivou a busca pelo diagnóstico psicológico, quais foram os sinais observados pelo psiquiatra, e por que esse rótulo foi atribuído à pessoa e como ela se relaciona com ele.
Ao falarmos de diagnóstico e transtorno, estamos implicando que algo não está funcionando corretamente, há algo dificultando alguma esfera específica do cotidiano de uma pessoa. Em primeiro lugar, nenhum diagnóstico psicológico é um manual de instruções, e nenhum tratamento é uma receita de bolo. Somos pessoas plurais, complexas!
Quando estamos falando de um diagnóstico psicológico fora de um contexto, mesmo ele se tratando de características específicas de funcionalidade, tendemos a falar dele de forma generalista, perpassando pelas características que costumam ser apresentadas quando tal transtorno está se manifestando.
Então, quando adentramos em um diagnóstico psicológico contextualizado pelas vivências do indivíduo que está em sofrimento, vamos entendendo as particularidades do caso para assim pensarmos juntos maneiras de trabalharmos tais aspectos.
Este caminho de olhar as expressões do transtorno a partir do contexto da pessoa é essencial também quando estamos tratando de transtornos que necessitam de diagnóstico diferenciado. Justamente pela característica subjetiva de transtornos psicológicos, alguns sintomas que se expressam de forma parecida podem acabar dificultando o processo do diagnóstico psicológico.
Por exemplo, a dificuldade de prestar atenção, como sintoma, pode estar relacionado a um quadro de TDA (transtorno de déficit de atenção), mas também pode estar relacionado a um Burnout em que a pessoa não consegue reter atenção pela falta de energia para tal.
Levando esses pontos anteriores em consideração, é essencial ressaltar a importância de refletir sobre a postura do profissional que realizou ou prescreveu tal diagnóstico psicológico. Muitas vezes no consultório aparecem relatos de pacientes que passaram por uma consulta breve com um médico (nem sempre psiquiatra), ou até mesmo outro psicólogo, e já saiu com algum tipo de diagnóstico vinculado a uma medicação alopática.
É sempre interessante fazer algumas perguntas para si, refletindo sobre a interação com o profissional:
- Tive tempo para falar todos ou a maior parte dos aspectos que estão me causando sofrimento?
- Senti que esse profissional estava me ouvindo, levando em consideração o que eu estava falando?
- O profissional me explicou o que significa tal diagnóstico psicológico?
- Este profissional explicou com clareza como chegou em tal diagnóstico psicológico?
- Me senti confortável ao pedir mais informações e questionar o que estava sendo dito?
Esses são alguns exemplos de reflexões que podem ser feitas em relação a este momento em que se recebeu o diagnóstico psicológico. Como em qualquer outro aspecto de saúde, é essencial encontrar profissionais que o paciente sinta confiança!
Voltando a falar sobre o diagnóstico psicológico em si, é necessário compreender não apenas o que não está funcionando, mas também para quem não está funcionando, ou seja, a quem este diagnóstico psicológico está servindo ou respondendo. Vivemos em uma sociedade que idealiza um certo molde de pessoa como correta, funcional e saudável. Tudo o que se desvia disso é considerado desviante, doente ou um transtorno.
No entanto, devemos questionar: quem está realmente doente? O indivíduo, o ambiente ou a própria sociedade? É fundamental entender em resposta a quem o diagnóstico está sendo dado. Alguns diagnósticos psicológicos podem atender às necessidades individuais, mas outros podem ser mais uma resposta às pressões externas, como exigências no ambiente de trabalho, podendo até agravar o estado de saúde da pessoa.
Exemplificando, é pouco sensato prescrever medicamentos para alguém com burnout continuar trabalhando, quando a raiz do problema está no ambiente de trabalho. Nesse caso, não se está tratando a causa subjacente da doença, apenas adaptando a pessoa a ela. Portanto, precisamos questionar que tipo de saúde estamos promovendo como profissionais de saúde mental.
Como profissionais da saúde mental, é nossa responsabilidade estar atentos ao que os sintomas estão comunicando, às necessidades individuais de cada pessoa, e ao que é saudável para elas.
Não se trata apenas de adaptar a pessoa a um estado de doença, mas sim de entender o contexto em que ela está inserida e como ela pode, dentro de suas possibilidades, promover mudanças em seu ambiente e em sua vida diária. O objetivo é ir além do diagnóstico psicológico, proporcionando um ambiente de conforto, carinho e acolhimento, que seja capaz de atender às suas necessidades.

