O Medo de Ficar sem o Celular e as mudanças da tecnologia
- Rafael R. Foltram

- 2 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de out. de 2024

Um dos assuntos mais falados nos últimos anos é referente ao nosso uso cotidiano de tecnologias digitais. Fazendo uma retrospectiva, a gente percebe o quão recente este fenômeno é. Há quase 20 anos atrás, os primeiros smartphones da marca da maçãzinha estavam sendo vendidos, e ainda levaria um tempo até este tipo de produto se espalhar pela população, o que dirá despertar o medo de ficar sem o celular nas pessoas.
Antes disso, os celulares eram feitos para ligações e no máximo um torpedo pago por mensagem (não à toa, o termo correto para se referir a eles em inglês, era phone ao invés de smartphone). Se queríamos ouvir uma música, tínhamos tocadores de disco, de mp3; para uma receita de cozinha, pegava-se um livro de alguém, ou pedia para algum conhecido escrever a mão; se precisasse de um computador, existiam as Lan Houses; as pessoas iam aos bancos, restaurantes, lojas de roupas, livrarias, bibliotecas, cinema, etc.
Quase que de uma hora para outra, essas e muitas outras atividades foram sendo centralizadas em um único aparelho pequeno, leve, e que cabe nos bolsos, quase que carregando todo esse mundo em nossas mãos. Com isso, a nossa relação com este mundo também foi mudando e ficar sem o celular começa a se tornar uma questão que, outrora, não existia.
Ainda estamos tateando esse assunto superficialmente devido a sua natureza recente, porém, já conseguimos ver e sentir algumas consequências do sobreuso dessas ferramentas, devido ao quão rápido todos os aspectos do nosso dia-a-dia foram delegados ao celular. Esses aparelhos deixaram de ser um luxo e passaram a ser essenciais para todas as pessoas (desde emitir ou assinar documentos até agendar consultas médicas).
A dependência é tão grande que é quase inimaginável pensar em ficar sem o celular nos dias de hoje.
Portanto, tendo em mente que esta mudança veio para ficar, precisamos aprender a ter consciência de COMO usamos estes aparelhos.
É muito comum quem procura ajuda sobre o medo de ficar sem o celular se deparar com vários conteúdos sobre formas e técnicas de diminuir o uso e o famoso “detox de dopamina”. Estas técnicas podem até ajudar num momento específico, mas fazer um trabalho aprofundado, entender como este uso está sendo feito, como cada pessoa em sua individualidade se relaciona com este uso, o que está sendo buscado nesse uso, entre outros pontos importantes, são essenciais para pensarmos em manejos não apenas a curto prazo, mas sim ao longo prazo.
Ou seja, é de extrema importância dar recursos para que os pacientes tenham a capacidade de refletir por eles mesmos para assim lidarem com a dificuldade que estão passando, do jeito que lhe fizer mais sentido.
Somos seres extremamente dependentes de nossa relação com a esfera social, e muitas dessas empresas de redes sociais se utilizam deste nosso aspecto, junto a outros artifícios, para que nós usemos cada vez mais as suas plataformas. Sentimos uma necessidade de estarmos conectados, se relacionando e ficar sem o celular vai se mostrando algo inviável neste contexto por diversas frentes.
Existe uma expressão comum no inglês que para mim encaixa perfeitamente nisso, que é o FOMO, fear of missing out, ou em tradução livre, seria o medo de estar perdendo algo. Sabe aquela coisinha que a gente sente quando nosso grupo de amigos se reúne e por algum motivo a gente não pôde, e assim vêm aqueles pensamentos de “o que será que eles estão falando?” “estão falando algo de mim?” “no próximo encontro vai ter alguma piada interna que eu não vou entender?” “estão se divertindo sem mim?” “Estou perdendo algo MUITO legal?”
E é nesse sentido de “perda” que o FOMO se expressa. E se a gente perder uma notícia mundial importantíssima? E se eu não entender a piada que todos viram na internet, menos eu? E se eu não assistir determinada série, como eu vou entrar no assunto das pessoas? Será que o próximo vídeo vai ser mais divertido do que esse que eu acabei de ver? Esses são apenas alguns exemplos ocasionados por ficar sem o celular e que muitas vezes podemos nem ter consciência que é isso que está passando em nossas mentes.
O FOMO se manifesta com tanta força pois, um conceito esquecido de apenas duas décadas atrás, era o de se estar online ou o de estar na internet. Antes, nós despendíamos um tempo específico do nosso dia para estarmos online. Hoje, nós vivemos online. Isso gera aquele engraçado efeito de conversas que nunca acabam e nunca se iniciam no WhatsApp, pois, raramente lembramos de avisar um amigo que estamos indo dormir e, portanto, iremos parar de responder.
Então, para além de simplesmente ficar sem o celular de vez, temos que entender todo o contexto que entorna cada um, afinal não é razoável assumirmos que alguém com o medo de ficar sem o celular deveria deixá-lo o dia todo na gaveta para ver o que aconteceria.
Nossas vidas estão vinculadas a estes aparelhos. É por eles que nos comunicamos com o trabalho, que um professor pode retificar o conteúdo para uma prova no grupo com os alunos, que pais conseguem se comunicar rapidamente com os filhos e garantir que está tudo bem. Existe um ajuste fino mais complexo que precisa ser analisado.
Saio de casa para ver pessoas? Tenho alguém com quem eu possa interagir quando fico sem celular? Me sinto muito sozinho, desamparado ao ficar sem o celular por muito tempo? É analisando cada um destes cenários que podemos entender como o ficar sem o celular pode afetar diretamente você e o seu dia-a-dia.
Dessa forma, vamos construindo todo o contexto que gira em torno desse uso, para assim, começarmos a pensar em como mudar essa relação para melhor, respeitando, claro, os limites de cada um. Não existe culpa em estar usando demais esses aparelhos, mas se você se interessa em mudar a sua relação com essas tecnologias, venha bater um papo comigo!




